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Uma Vida. Uma casa.

Uma Herança.

 

Nuno recebera uma proposta de trabalho absolutamente irrecusável. Depois de muitos anos a queimar as pestanas na universidade, sentira o doloroso impacto da realidade que cedo se adivinhou adversa. O ingresso na vida activa, bem longe de corresponder às expectativas de um engenheiro em telecomunicações, reservou traumáticos ensinamentos num ateliê de reparações de computadores. Há sete meses casado com Mariana, o presente era gizado com o fino traço da ilusão, num conluio afinado mas irracional da ambição com a ingenuidade. A cada plano, em qualquer delírio verbalizado em voz alta, os dois rasgavam horizontes, especulando com o melhor da sua imaginação. Queriam mais da vida.
Mas voltemos à janela profissional entretanto escancarada. Apresentaram a Nuno a possibilidade de ter um cargo por muitos disputado numa operadora de telemóveis, que forçava a mudança para o litoral. Na verdade, uma cidade com grande tradição piscatória. Além de um chorudo ordenado, somava-se um subsídio para despesas de fixação e uma viatura descaracterizada da empresa. Depois de descobrir que havia sido indicado pelo seu orientador de estágio – homem de grande prestígio naquele sector e profundo admirador das excepcionais capacidades do antigo aluno – não foi preciso muito tempo para dar uma resposta. O jovem casal disse sim ao desafio. Os dois quiseram entregar-se a uma aventura que os marcaria para toda a vida.
Chegados à cidade de acolhimento, a prioridade foi para a escolha de um novo ninho. Como os incentivos financeiros permitiam opções de qualidade, recorreram aos serviços de uma imobiliária. Numa tarde, tinham conhecido quatro hipóteses de residência. Nenhuma delas lograra arrebatá-los. Já sem grande esperança em convencê-los, a guia jogaria o último trunfo. Uma moradia junto ao mar, usada e por isso já mobilada. Na verdade, a casa parecia uma aguarela saída dos projectos mentais que os dois tinham sonhado. Isolada, cravada numa zona essencialmente verde, com o mar sempre em pano de fundo, onde o enleante zunido das ondas ameaçava o tórrido silêncio do lugar, era a habitação que há muito verdadeiramente desejavam.
Como os bolos apetecidos nunca dispensam uma cereja, o preço de aquisição era surpreendentemente acessível. Tomados pelo assombro da oportunidade, apressaram a formalização do negócio. Uma pechincha. Já se imaginavam a mostrar as divisões dos seu novo reduto aos pais, vangloriando-se de terem conseguido materializar um sonho inesperadamente feito realidade.
No dia da mudança, recolheram os longos lençóis brancos que tudo tapavam. Detiveram-se a contemplar o novo palco das suas vidas. Quanto mais viam, mais orgulhosos ficavam. “Olha para estes móveis! Já reparaste como a luz do sol inunda a casa inteira?” – constava Mariana inebriada pelo pasmo de cada instante.
O certo é que a moradia tinha mesmo tudo. Móveis, quadros, tapetes, cerâmicos decorativos, candeeiros de singular bom-gosto, enfim, um lar que parecia feito de encomenda. Até um quarto para bebé parecia ter sido carinhosamente preservado.
Contudo, um estranho sentimento os assaltou logo na primeira noite. E nas seguintes. Sim. E nas seguintes também. O misterioso é que os dois relatavam sentir o mesmo. Uma presença estranha que os acompanhava e observava. Experimentavam uma tristeza incomensurável, uma dor perturbadora, uma súbita e inexplicável vontade de simplesmente saírem dali. Ficaram particularmente angustiados pelo facto de em muitas gavetas terem visto meias de homem, camisas impecavelmente vincadas e outras peças de vestuário feminino concebidas para uma silhueta irrepreensível. Na sala de estar, por exemplo, até molduras propositadamente caídas mas sem retratos encontraram numa amálgama de objectos reconhecidamente pessoais. Tudo parecia ter e estar no seu lugar.
Contactaram a imobiliária para expor a situação. Do outro lado do telefone, notaram uma indiferença deliberada. Apenas diziam. “Faça o que quiser. Dê ou queime. Isso agora é tudo seu”. A casa era isolada e o lugar quase inabitado. Procuraram alguns populares mas todos se esquivaram a conversas. Indagar sobre o passado daquela casa era assunto proibido. Acentuou-se o desassossego. Nuno e Mariana retrocediam nas passagens do seu mais recente filme. Casa boa, barata, num local privilegiado merecia ser publicitada pela imobiliária com maior visibilidade em vez de ser relegada para quinta opção.
Embrenhado nos seus pensamentos, o nosso engenheiro em telecomunicações abre ao acaso uma gaveta da requintada secretária. Descobre um CD onde, com tinta de acetato, está escrita a palavra “fotos”. Aberta a pasta, visualiza um casal, na casa dos trinta anos. Ela, de esperanças, beija um marido de olhos cansados. Sucedem-se fotografias como retalhos de uma vida que aparecem encaixados num mosaico a preto e branco de memórias. Nuno imprime algumas imagens e faz uma pequena investigação. Chega a conclusões.
A casa havia sido construída por Eduardo, um empreendedor armador da zona. A pulso, construíra aquilo que muitos já chamavam de império. Deu emprego a muita gente. Estava bem na vida. Casado com Leonor, tinha erguido uma casa que ele próprio desenhara desde a adolescência. Há ano e meio que tinha comprado um iate.
Na primeira viagem, acompanhado pela mulher ostentando seis meses de uma muito desejada gravidez, foi surpreendido por uma tempestade. Não regressaram. A mãe dele ficou sem o seu único filho. O desgosto esgaçou-lhe o coração e sonho de ser avó. Não voltou mais àquela casa de ilusões. Decidiu vendê-la tal qual ficou no último dia.
Nuno e Mariana eram afinal estranhos numa casa sem preço. Escolheram depois um apartamento para viabilizarem o seu projecto de vida. Tiveram sucesso. Vão ser pais dentro em breve. Estão felizes.
Os lugares e as coisas transformam-se em legados quando tocados pela energia humana. Não é por caso que às vezes nos sentimos mais em casa ou menos à vontade com alguém. No mais, estamos talhados para fazer a diferença, deixando a nossa marca. Há quem lhe chame herança. E há heranças que não se compram nem se vendem…
 
José Manuel Alho
(100.º post)
 

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25 de Abril de 1974 - II

por alho_politicamente_incorreto, em 24.04.09

 Ainda a tempo de reinventar

o 25 de Abril

ou já é tempo de fundarmos

o 26 de Abril?

 

Trinta e cinco anos depois da Revolução de Abril, há mais dois milhões de portugueses. Apesar de terem menos filhos, vivem mais tempo, e a chegada dos imigrantes ajudou a população a crescer. Segundo dados do Instituto Nacional de Estatística (INE), em 1970 existiam 8,6 milhões de portugueses. Em 2007 esse número tinha aumentado para 10,6 milhões.
Apesar do aumento populacional, actualmente há menos crianças até aos 10 anos do que havia em 1970 (cerca de um milhão, contra 1,6 milhões, respectivamente).
E aqui residirá o sintoma maior de uma pátria encurralada pela acção de gerações de políticos que, à data de Abril de 2009, expõem Portugal às fundadas brumas do incerto.
Passou tempo suficiente para não subsistirmos nesta impune indefinição de um nobre Povo que, sendo valente e dado heróis ao Mundo, merecia experimentar rasgados esplendores de prosperidade.
Acomodámo-nos e permitimo-nos entorpecer por sucessivas castas de incompetentes animados pelo oportunismo e pela incapacidade de servirem o bem público. A miséria recrudesce, o desemprego e outros males sociais arrasam, sem apelo nem agravo, uma sociedade alheada. Fomos tomados pelo fatalismo com insustentável conformismo.
Perante o descrédito a que foi votada a coisa pública, passámos a aceitar o escândalo mais sórdido com a complacência de quem reconhece “se estivesse lá outro, faria igual…”
A nobreza de carácter nem lembrada é. As nossas crianças e jovens, sujeitos a experimentalismos sem fim, crescem coxos de mais e melhor formação à custa de uma tonta necessidade de tudo facilitar e desculpar. Cultura de exigência só para justificar sacrifícios perante novas subidas de impostos ou taxas. O Povo apalermou-se e já nem é levado a sério pelos governantes que elegeu.
A Saúde, a Educação, a Justiça, a Defesa e a Economia nacionais tiveram afinal o progresso expectável ao fim de (mais) 35 anos de vida?
Os nossos velhos não vêem exponenciado o seu capital de sabedoria em favor da colectividade; a Família, enquanto célula basilar e estruturante de uma sociedade mais humanizada, não foi devidamente acarinhada; as relações laborais conheceram uma séria regressão; os nossos presos não têm equipamentos estruturais nem recursos humanos vocacionados para uma verdadeira reabilitação que os torne mais-valias entre iguais e a Solidariedade foi tomada de assalto pelos eleitos para se escusarem das suas responsabilidades de decisores políticos.
Os diferentes níveis de autoridade – mafiosamente conotados com autoritarismo – foram gravemente afectados por quem precisamente deveria zelar pela sua integral preservação. Falta o civismo, a tolerância e a responsabilidade que 35 anos de Liberdade deveriam ter significado numa pátria supostamente entregue ao melhor dos seus melhores.
Em razão desta irrenunciável encruzilhada patriótica, cumpre saber: vamos ainda a tempo de reinventar o 25 de Abril ou já é tempo de fundarmos o 26 de Abril?

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25 de Abril de 1974 - I

por alho_politicamente_incorreto, em 23.04.09

 

ABRIL DE ABRIL
 

 

Era um Abril de amigo Abril de trigo
Abril de trevo e trégua e vinho e húmus
Abril de novos ritmos novos rumos.
Era um Abril comigo Abril contigo
ainda só ardor e sem ardil
Abril sem adjectivo Abril de Abril.
Era um Abril na praça Abril de massas
era um Abril na rua Abril a rodos
Abril de sol que nasce para todos.
Abril de vinho e sonho em nossas taças
era um Abril de clava Abril em acto
em mil novecentos e setenta e quatro.
Era um Abril viril Abril tão bravo
Abril de boca a abrir-se Abril palavra
esse Abril em que Abril se libertava.
Era um Abril de clava Abril de cravo
Abril de mão na mão e sem fantasmas
esse Abril em que Abril floriu nas armas.
Manuel Alegre

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Um amor assim

é maldição ou é obra de Deus

 
Como diria a canção, parece que o mundo se reunira para o tramar. A ele, o contabilista atinado que monitoriza, com sucesso, as constas de umas quantas empresas da baixa, tudo parecia alinhado para o enredar na teia do inesperado. Vinha da farmácia onde “já ninguém espera pela sua vez” como se cada um fosse, instigado por um incompreensível estado de alerta, resgatar a derradeira embalagem de cada medicamento. Oliveira, como é conhecido e tratado, sentia o sangue a ferver de indignação. Até na pastelaria onde, por uma questão de elementar cortesia, havia, ao sair, mantido aberta a porta do estabelecimento para uma jovem entrar, constatara que um simples “obrigado” estaria porventura reservado a gente mais importante que ele. Se calhar, fora, pura e simplesmente, confundido com um qualquer porteiro comercial cuja única função é franquear o acesso a todos os potenciais clientes.
Estava determinado a esquecer estes desmandos que confirmam, pressente-o, um mundo socialmente abusador. Empunhando um sonoro conjunto de chaves que garantem a abertura do seu gabinete de contabilidade, já vigorosamente apontado ao canhão da fechadura, sente um cheiro que o remete para lembranças doces, soltas pelo tempo. Algo que não é recente, mas estranhamente próximo.
Roda o pescoço e logra reconhecer uns negros cabelos, brilhando ao sabor de uns quantos raios de sol. Um friozinho no estômago assinala uma reacção instintiva que julgara há muito extinta. Um sentido slowmotion serve o propósito maior de vislumbrar o vulto responsável por aquele turbilhão incontrolável de emoções. Na verdade, tratava-se de Catarina, o primeiro e genuíno caso de amor, não correspondido, que alimentara na sua pouco estimulante adolescência.
Até hoje guarda na sua carteira um discurso escrito, pensado para verbalizar uma incontida declaração de amor. De início, tolhido pela sua inexperiência, inclinou-se então a ter por paixão o que hoje se mantém resistindo aos entroncamentos da vida. Ele, solteiro e à procura do almejado reconhecimento profissional. Ela, com a singular marca de uma aliança na mão esquerda, com bom vestir, asseguram os dois um presente longe dos planos gizados por uma alma ingenuamente sonhadora.
Lembra agora, suspenso na surpresa daquele instante, a declaração que não disse quando viu Catarina de mão dada com um tipo bem-parecido, mais condizente com a insustentável beleza dela. Na altura, guardara literalmente no bolso o amarrotado papel onde as palavras por dizer não reflectiam ainda assim o que realmente sentia por aquela encantadora rapariga. Só ele sabe o que poderia ter acontecido naquele final de tarde. Ensaiara, com tiques melodramáticos, os silêncios, as interjeições e calculara inclusivamente os imprevisíveis movimentos de duas mãos suadas pela exigência da ocasião. Mas nada afinal acontecera.
Voltando ao imprevisto encontro, cumpre assinalar que ambos se reconheceram. Saudaram-se. Ela, mais efusiva e carinhosa, estendendo a mão à sua cintura num beijo ironicamente perfumado. Por seu turno, o transtornado Oliveira, com uma resposta emocionalmente orientada, procurava racionalizar o impacto do momento.
“Há quanto tempo não nos víamos!!” – dispara ela, para logo constatar que “estás muito bem estimado. O tempo parece que não passou por ti...”
“Não é bem assim... – retorque sem jeito. De seguida, refugia-se num lugar-comum, expedido com sofrida ironia: “a minha sorte foi não me ter casado!”
Catarina encolhe as sobrancelhas como que estranhando o facto. “Não acredito que tenham deixado fugir este bom partido! Sabes, divorciei-me há dois anos e, lá no fundo, percebo agora aqueles que, como tu, preferem estar sozinhos. É outra coisa.” – garante em forma de alívio.
Oliveira parece, mais do que nunca, empedernido. São novidades dadas com a rudeza de jactos de água fria numa manhã de Inverno. Quando se aprestava para ter um rasgo de ousadia, convidando-a para um café, ela remata com um apressado “até um dia destes. Tenho consulta marcada e já estou atrasada...”
De chaves ainda na mão, paralisado no último degrau da escada, com o papel amarrotado de uma declaração por fazer há anos, ali ficou Oliveira de novo a imaginar uma vida que sempre concebera. Definitivamente, não era paixão o que sempre alimentara. Aquele sentimento, há tanto tempo exilado no mais profundo das suas entranhas, por culpa de um coração sem amarras, só poderia ser uma de duas coisas: maldição ou obra de Deus.
 
José Manuel Alho

 

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Ajuste de contas

regressando ao passado

* Esta parece ser a motivação que animará quem, nada tendo feito num passado recente para ter condições de sucesso, desejará agora vestir a pele d'"o último coveiro" do Agrupamento.

 

Em resultado de um empenhado roteiro feito por uma profissional de educação junto dos jardins de infância do Agrupamento, parece provável que um ex vice-presidente do anterior Conselho Executivo - que, recorde-se, apresentou a sua demissão em bloco por ausência total de condições para prosseguir a sua acção - deverá aduzir a sua candidatura para Director no âmbito do processo concursal  já aberto.

Mais do que registar a incapacidade do próprio para perceber o óbvio (se há poucos meses atrás se demitiu por não ter condições para desenvolver a sua missão, será que o tempo entretanto decorrido operou o milagre de inverter tão funesto cenário?!...), parece sobressair desta decisão insensata o desejo instintivo (ou não...) de ajustar contas, promovendo o regresso a um passado de tão más e trágicas memórias colectivas.

Na verdade, há indivíduos cuja natureza primária se sobreporá ao discernimento lúcido que, por vezes, a vida aconselha. Para alguns, este deveria ser um tempo de recato e de terapêutica discrição...

Neste cenário em que alguns terão deixado o Agrupamento - com tão má imagem e impressão exteriores - o futuro jamais se compadecerá com um regresso ao passado. Rostos do tempo d'"a outra senhora", em princípio, só promoverão o conflito gratuito, a perseguição, a distribuição de benesses por velhos compadres e, acima de tudo, uma política de terra queimada assente na VINGANÇA na sua dimensão mais podre e sórdida. A COMPETÊNCIA e o MÉRITO de nada valerão.

Em contraponto, e numa apreciação em abstracto, o FUTURO só se fará com gente impoluta, sem mácula, exclusivamente apostada em exponenciar o melhor de cada agente educativo. Mais do que nunca, o que o Agrupamento precisa é de responsáveis leais e competentes, com curriculum que fale por si, insusceptível de dúvida ou suspeita. Gente que já provou não eleger a VINGANÇA ou a PERSEGUIÇÃO como "trunfos" da sua acção. O momento é grave e reivindica Maturidade e comprovada Experiência. Estabilidade precisa-se. De igual modo, a conjuntura não se afigura compatível com "testas de ferro" para a prossecução de desígnios inconfessáveis.

Querer o poder pelo poder não é projecto. Querer o poder para vinganças não é tolerável. Querer o poder para, num rasgo de saudosismo insano, ostracizar, desprezar e prejudicar quem pensa de maneira diferente será simplesmente caótico.

Mário Rui Lopes - a quem se renova o repto para apresentar a sua candidatura - está em condições de reunir os predicados que o momento impõe. Dele se aguarda o melhor e nele se deposita a já experimentada ESPERANÇA num futuro (bem) melhor.

O nosso agrupamento não precisará de um último "coveiro" que o enterre para todo o sempre. É tempo de mudar (mesmo) de vida porque a morte nunca foi sinónimo de futuro.

 

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Um dia na cabeça dele

 

 

 

7.00 Horas. O ensonado Freitas abre oficialmente as portas do café “Entre Nós”. A equipa da empresa que assegura a limpeza do estabelecimento acabara de sair. O fresco e desinfectado cheiro do lava-tudo perfumado dava o tom para mais um amanhecer em que, sem excepção, cabe ao Tó Pereira abrir as hostilidades com o previsível galão, acompanhado do benfazejo pão com manteiga. “O rapaz pensa que é patrão. Lá por ganhar umas massas como electricista recém estabelecido, fala e caminha com a segurança dos manientos…” – pensa, sem cerimónia, o nosso amigo Freitas, ainda mal refeito de uma noite consumida em claro. O pastor alemão do vizinho não o deixa dormir há semanas, exasperando-o ao ponto de assumir, com a cumplicidade que só dispensa aos botões do seu bem posto colete negro, a profecia velada de “um dia destes, ainda lhe meto na gamela uns pozinhos da minha avó!…”
8.12 Horas. Chegam, sempre pela mesma ordem, os clientes do costume. A menina do Cartório Notarial – “aquelas meias ficam-lhe tão bem…” – o senhor Amândio, um dos mais conhecidos e respeitados empregados bancários da cidade; a D. Isabel, sempre com pressa para levar os miúdos para o colégio e, com intransmissível vulgaridade, o “par de teteias” formado pela indomável dupla «Alcina & Idalina». Elas são as “prendas” que atendem meio-mundo nos balcões dos correios, responsáveis únicas pelas intermináveis filas que conferem às pedras da calçada nova e recorrente utilidade. “Já faltou mais para as regar com café! Admite-se que tenha esperado hora e meia para levantar uma encomenda?!”, resmunga, sem balbuciar qualquer zunido digno desse nome, o diligente mas calado Freitas.
Ele tomou conta do negócio que sempre foi do sogro. A vida que leva no “Entre Nós” nunca constou dos seus planos de vida, mesmo quando gizava, num misto de aventura e rebeldia, formas e meios de fugir à guerra no ultramar. O filho, que o cunhado, por ser também padrinho, insistiu, a bem da tradição familiar, baptizar de Adélio Joaquim – “que raio de nome para o miúdo!” – está há seis anos para concluir a licenciatura em Engenharia do Ambiente. Não há semana que não telefone, a pretexto disto ou daquilo, para pedir mais uns cobres ao “velho”. Férias nunca soube o que era. Viajar não parece estar nas suas conjecturas para o futuro próximo. Está, simplesmente, cansado do presente a que chegou a sua vida. Dilacera-se porque interiormente acumula-se a irónica desilusão com a vontade de, sem mais demoras, explodir. Dizer e fazer o que lhe desse na gana era a sua maior ambição imediata. Contudo, resigna-se. “Iriam pensar que me passei de vez! Tenho um negócio. Não me posso dar a essas maluquices!”
Às dez horas chegará a sua mulher, a incansável Elisabete, que já adiantou tudo em casa, até a “janta”. Hoje ele sente que tem de sair. Vai pedir à parceira de muitas insónias que segure o barco enquanto finge que terá de ir ao banco tratar de umas papeladas. Chegada a horinha, despede-se recorrendo assaz determinado à protecção de um simples casaco, que o descaracteriza. Por momentos, também ele vai pensar e sentir que não é aquilo em que se tornou. Na rua, até pode acontecer que não o reconheçam como o “Freitas do café”. Afinal, para quê esta fuga? Freitas, aonde é a ida?
Tanto arrojo para acabar num banco na estação dos caminhos-de-ferro?! Não tem nem quer apanhar qualquer comboio. Ali está o retrato da sua vida. Uma vez mais, sem destino. Despretensioso, pretende apenas estar só na grande cidade. Não ter que agradar ou satisfazer os desejos de terceiros foi a motivação para tamanha ousadia. De mãos nos bolsos, aprecia a gente que sai e entra das carruagens. Alguns, com o rosto colado nos vidros, alheados e engolidos pela rotina, parecem não olhar nem ver ninguém. “Gente tão triste!” – remata, atordoado, este nosso “sociólogo de estação”. Descobrira não estar só, sentira não ser “um anormal” e, por momentos, orgulhou-se do muito pouco que tem.
Regressado ao “Entre Nós”, o homem estava transfigurado. Entrou sorridente, gracejou com o fornecedor dos refrigerantes e beliscou a entretanto corada Elisabete. De então em diante, decidiu tocar as pessoas com os olhos. A cada momento, em cada gesto, cumprimentar os clientes com um sorriso no olhar assumira o alto estatuto de “norma da casa”. Teria ele descoberto como ser feliz? Será que optou por, entre nós, ser diferente? Freitas, o que é que te deu?...
 
José Manuel Alho

 

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Promessas somem-se com o vento...

por alho_politicamente_incorreto, em 09.04.09

 Genéricos poderiam significar 

poupança de 120 Milhões de euros/ano

Esta semana ficou marcada pela polémica campanha promovida pela ANF (Associação Nacional de Farmácias) e a Ministra da Saúde, que acabou por anunciar que não comparticipará os medicamentos genéricos mais baratos, dispensados nas farmácias no âmbito do Programa DCI 2009. Com esta decisão administrativa, afiança a ANF, "o Ministério da Saúde assume que prefere comparticipar medicamentos de marca mais caros, embora com a mesma composição e efeito terapêutico, a genéricos com preço mais baixo para os doentes e para o Serviço Nacional de Saúde."

É pois neste contexto que "as farmácias portuguesas decidiram reformular o Programa DCI 2009 e vão continuar a informar os doentes da existência de medicamentos genéricos mais baratos, informando-os de que não vão poder optar por fazer essa poupança. No recibo emitido pela farmácia o doente ficará a saber o valor da diferença de preço entre o medicamento de marca que lhe foi prescrito e o medicamento genérico mais barato correspondente." - asseverou a ANF em comunicado.
Ao mesmo tempo, as farmácias portuguesas vão lançar uma petição, a ser subscrita pelos doentes que o entenderem, com o objectivo de pedir ao Ministério da Saúde que lhes conceda o direito de poderem optar pelos medicamentos genéricos mais baratos.

Apesar de a campanha da ANF ter sido formal e legalmente insustentável, cumprirá ainda assim reconhecer que logrou contribuir para desmascarar a aparente hipocrisia da tutela, que inscreveu esta mesma medida no seu programa de governo. Percebe-se o melindre da questão, que parece contender com interesses inconfessáveis, e que ameaçaria pulverizar a caricata e (já) insuportável ditadura do médico no momento da prescrição, como se o doente não tivesse direito a discutir com aquele as medidas terapêuticas aplicadas aos seus males.

Tudo se mantém como dantes. Médico escolhe; doente PAGA!

 

Serviço Público

Uma vez mais, me presto ao edificante papel de assumir um papel de vincado interresse público. Mais do que esclarecer as principais questões atinentes ao Genéricos (vide interrogações destacadas em baixo), disponibilizo os endereços electrónicos dos sítios onde poderá efectuar uma pesquisa pelo nome da substância activa ou nome do medicamento, obtendo resultados por ordem crescente de Preço para o Utente (do mais barato para o mais caro): http://www.infarmed.pt/genericos/pesquisamg/pesquisaMG.php . 

  

O que são medicamentos genéricos?

Um medicamento genérico é um medicamento com a mesma substância activa, forma farmacêutica e dosagem e com a mesma indicação que o medicamento original, de marca.  

 

Quais as vantagens dos medicamentos genéricos?

Os medicamentos genéricos têm a mesma qualidade, eficácia e segurança a um preço inferior ao medicamento original (35 por cento mais baratos do que o medicamento de referência).

 

Porque são mais baratos os medicamentos genéricos?

Porque após o período de protecção de patente dos originais, os fabricantes de genéricos não têm os custos inerentes à investigação e descoberta de novos medicamentos. Assim, podem vender medicamentos genéricos com a mesma qualidade mas a um preço mais baixo do que o original.

 

Como posso identificar um medicamento genérico?

Os medicamentos genéricos são identificados pela Denominação Comum Internacional (DCI) das substâncias activas, seguida do nome do titular da Autorização de Introdução no Mercado (AIM) ou de um nome de fantasia, da dosagem, da forma farmacêutica e da sigla «MG», inserida na embalagem exterior do medicamento.

 

Como são prescritos os medicamentos genéricos?

São prescritos pela denominação comum internacional (DCI) ou nome genérico das substâncias activas, seguido do nome de fantasia, quando exista, ou do nome abreviado do titular de AIM, e da dosagem e da forma farmacêutica.

  

(In Infarmed - Autoridade Nacional do Medicamento e Produtos de Saúde, IP)

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